segunda-feira, 17 de março de 2008

Diário de bordo, de um comboio que pega em mim e me leva para onde ele vai



O pijama dobrado na cama, imaculadamente engomado, pousado no lençol suado. Lágrima que cai, deixando marcas vincadas que em vão se tentam esconder perto de mim, se assim o poderei dizer! Poder dizer no fim, e então: mostrar-lhe (para sempre). Tensão terrível que me faz gritar, ecoa atabalhoadamente na minha cabeça, queima-me. O poste sob o muro da casa junto ao rio, e eu na outra margem que me devolve o olhar curioso. Peixe podre na varanda, sonhando em ver a noite de pernas para o ar, enterrando as orelhas nas lâmpadas, perdendo as rédeas. O arranhar das unhas na pele macia, fazendo com que o meu acordar seja ingrato. Cuspo para o ar, sou de novo bafejado pelo fluxo vigoroso de uma chapada que falhou o alvo, deambulando no ar.

Uma nova alma neste mundo. Medo de falhar, de perder a distância que ainda falta percorrer. Sensação estranha esta que rebola nas minhas tripas mal cheirosas. Agarro o poste (do lado de fora) que me foge, deixo-o ir. Fico de mãos vazias coladas no vidro da janela. O final feliz que não aparece, parece-me um engano. Um possível engano que me persegue em passo de corrida, vagueando apressadamente, eternamente, sempre pronto para partir em direcção ao limite. Desgovernado, perco o norte, ali a olhar o sol, nunca me perdoando por algo que ainda não fiz (nem que devia ter feito).
Mais uma vez o tempo, preso na parede, da noite passando para o dia, voltando ao ponto de partida se qualquer noção de o ter feito, sem lembrança. Um arrepio gélido atravessa-me a espinha, um tufo de gelo percorre-me as veias que vão engrossando com o crescente nervosismo, como se estivesse numa gaiola enferrujada, de onde não esperava sair, mas de onde tentava a fuga. Porém ainda não fora desta que reunira as necessárias forças (vou trincando uma bolacha) que me eram sugadas pela desilusão. Mais uma vez espreito pela janela. O meu pé esquerdo dormente, a perder lentamente a sensibilidade, o chão move-se, saltito em passo de corrida. Um som vem do lado de fora, sempre o mesmo som. Ainda não venci o meu medo, mais uma vez havia perdido a coragem de esticar o pescoço além dos limites impostos pela janela, mais uma vez ficara a desconhecer o dono de tal som que ecoava nas minhas orelhas. Uma comichão começa a arrepanhar-me o pescoço, mas a preguiça não mo permite coçar. Coço para a semana (pensei eu):

- Na verdade, se queres saber, estou-me a cagar para tudo isto. Desisto!

Esta ideia de derrotismo não me saia da mente, apesar de em certas alturas esse facto costuma ficar escondido enquanto me entretenho com pequenas coisas, para logo depois tornar a subir paredes e dar vigorosas cabeçadas na parede.

Rir por dentro, pisar o calo, olhar o vazio, contar o tempo, ver os meus três ou quatro cabelos brancos, correr sem sair do sitio, um pé grande e um pequeno a mancar. Pano sujo. Nódoa na minha camisola nova. Fisga gigante apontada às minhas trombas. Ramo de árvore enfiado no nariz.